50 Anos de existência

sexta-feira, 19 de julho de 2013

ANGOLA NO CORAÇÃO, ANGOLA EM POESIA

Nas cascatas do Keve
Entrelacei o teu cabelo
A espuma era neve
A água era gelo

Pela Gabela pernoitei
Numa noite de luar
Por ti me apaixonei
Aprendi como amar

Na Quibala os teus olhos
Viraram estrelas ao luar
Foram beijos aos molhos
Qual deles era para enxaguar?!

Carlos Simões

ANGOLA NO CORAÇÃO, ANGOLA EM POESIA

Em Massangano descobrimos
Crianças a sorrir
Com o coração colorimos
Um jardim a florir!

Numa porta entreaberta
Uma luz incandescente
Coloquei a minha mão aberta
Naquela luz fluorescente

Sinal de vida, sinal de alegria
Era um espaço colorido
Uma verdadeira alegoria
Questionaste “És tu, meu querido?!”

Eram cardos, eram rosas
Do jardim as colheste
Saíram umas prosas
Das quais tu as leste!
  
No Cine Atlântico ouvimos a melodia
Das vozes soberbas que ecoaram
Pensou-se qual seria o dia
Em que as vozes nos abençoavam!

Chamei por ti, vem amor!
Respondeste com um aceno
Naquela voz de dor
Não é a ti que eu condeno!

Manchaste o meu coração de púrpura
Levaste a minha alma para longe
Longínqua ficou a amargura
Fizeste de mim um monge!

Monge da terra, monge da alma
Senti os teus lábios quentes
Disse-te eu, fica calma
No coração e afluentes!

Pelo rio caminhamos
Num andar apressado
É assim que nos amamos
Num amor imaculado!

Carlos Simões

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Esmorece o cansaço

Caminhamos, caminhamos na delícia de encadernar as obras de coleccionadores que resistem à crise. Somos jovens ao compararmos a nossa idade ao que nos chega. De Camilo Castelo Branco a Eça de Queiroz, somos galvanizados a prosseguir. O cansaço esbate-se na beleza interminável das relíquias, esmorece a vontade de não continuar, e suportamos ano após ano as resistências que afectam os últimos encadernadores de Portugal.
Pelo cliente e pela beleza,

Carlos Simões

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Até as forças nos faltarem!

Fomos atingidos de forma abrupta pelos percalços da lotaria desta vida. Ponderou-se manter ou fechar a oficina, mas concluímos que perante muito sacrifício estaria aberta até os clientes assim o entenderem. Existem tarefas divididas, uma das quais o dourar a cargo do Florindo. Tem sido nestes tempos um autêntico jovem, a multiplicar-se na assistência familiar e nos trabalhos da encadernação. Mas a idade já pesa, e tentar ser jovem todos os dias é extenuante. Mas o amor aos livros fala mais alto, e seguimos até as forças nos faltarem. Obrigado a todos !
Carlos Simões

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

CONTRA A CRISE .... MARCHAR.... MARCHAR !

Contra a crise... MARCHAR....MARCHAR !
Ainda existem obras e clientes que resistem como uns “valentões” á crise que grassa o nosso País.
Pelo amor e paixão aos livros, são eles que nos ajudam a sobreviver a estes “tumultos” económicos, que minam e acabam com qualquer artesão, sobrevivente a muito custo das lufadas de oxigénio que aparecem esporadicamente.
Mas não desistimos, e prometemos “velhinhos” estar com todos aqueles que ainda nos procuram. Queremos ser testemunhas das obras que completam a estante e bibliotecas espalhadas um pouco por todo o Portugal.
Contra a crise, vamos sobrevivendo por todos!
Carlos Simões

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

História de vida - Florindo Simões

Na edição de hoje do Jornal de Leiria:

Uma vida a encadernar livros

Tem 78 anos, mais de 60 dos quais dedicados à arte
de encadernar livros. Florindo Simões é um dos
últimos encadernadores de Leiria e, apesar de
reformado, continua a ir todos os dias para a oficina
onde trabalha com o cunhado. Gosta do ambiente, do
contacto com os clientes, do cheiro dos materiais.
Garante nunca se ter cansado da actividade. “Gosto
muito desta profissão e tenho pena que um dia acabe.
Não há quem queria aprender, é uma pena”, lamenta.
Natural dos Pousos, Florindo Simões começou a
aprender o ofício de encadernador aos 13 anos, na
então tipografia Mendes Barata, na Praça Rodrigues
Lobo. “Lembro-me perfeitamente que o mestre era
um senhor chamado José Moreira Ferreira, que mais
tarde foi para a prisão escola”, diz. Na Mendes Barata
não havia a figura do encarregado, mas Florindo
Simões, então com cerca de 19 anos, foi chamado a
exercer essas funções. “Sabia a arte de encadernar,
mas não sabia dourar. O patrão pôs-me a aprender”,
conta. Assim que soube, passou a encadernador
dourador, com a tarefa de ensinar os mais novos.
A juventude decorreu entre os materiais de
encadernação e as brincadeiras com os irmãos e os
amigos. “Íamos ao cinema e pescávamos no rio, com
cana. Havia muito peixe e o rio era limpinho”.
Também iam à praia da Vieira, de bicicleta. Ainda tem
uma, mas já não anda nela. Praticou basquetebol e
hóquei em patins no Ateneu, mas “caía muitas vezes”
e acabou por desistir.
Foi em tempos sócio do União de Leiria, mas hoje
assume-se como “benfiquista ferrenho”. Admite
mesmo ser “doente da bola”, na medida em que vive
“com intensidade” este desporto. “Gosto que o meu
clube ganhe”, resume.
Com cerca de 24 anos, e já casado, resolveu
estabelecer-se por conta própria. Durante anos, o
Diário da República foi “o suporte” da oficina Florindo
e Costa. Pelas mãos do encadernador passaram
muitos livros preciosos, restaurados com mestria e
paciência. Com o advento do digital “perdeu-se um
bocado do serviço”. Florindo Simões recorda ainda a
pasta feita na sua oficina para entregar a João Paulo II
aquando da primeira visita deste Papa a Fátima, nos
anos 80.
Quando não está na oficina, Florindo Simões está no
quintal, a cultivar a terra. Fica satisfeito quando as
pessoas que passam lhe elogiam “o jardim”. É aqui
que passa o tempo livre, a fazer a sua agricultura, de
que gosta “bastante”. Cultiva para si e para os filhos.
“Quando há abundância dou, em vez de se estragar”.
Florindo Simões gosta de ir à praia, de passear. Ainda
não perdeu a esperança de ir a Angola, visitar um filho
que lá tem. “Há coisa de dois anos”, quando
comemorou as bodas de ouro, foi isso que pediu à
equipa de um programa de televisão que passou pela
Praça Rodrigues Lobo. “Mais tarde apareceu-me lá na
oficina uma menina da equipa com a notícia de que
não me dariam a viagem a Angola, mas um cruzeiro
de quatro dias no Mediterrâneo”. Foi com a mulher.
“Espectacular. Foi a melhor viagem da minha vida”.

Começou a aprender o ofício
de encadernador aos
13 anos, a ganhar
13 escudos por semana